quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Já ouviu falar em teacherpreneur?


Por Marcelo Freitas

Novos tempos trazem novas perspectivas. A avalanche tecnológica dos últimos anos trouxe para dentro das salas de aula recursos de aprendizagem nunca antes imaginados. Também proporcionou uma verdadeira revolução nos conceitos de ensino e aprendizagem que, nesse momento, passam por questionamentos os mais diversos.

Todo esse ambiente de mudanças, muitas delas radicais, fez e continua fazendo aflorar ameaças e oportunidades para empreendedores de diversos matizes. Empresas de tecnologia buscaram profissionais de educação no mercado para lançar linhas de produtos. Executivos dos mais diversos segmentos foram seduzidos por grupos educacionais para compor seus quadros e profissionalizar a gestão das escolas. Consultorias as mais diversas perceberam a demanda e criaram departamentos de “Educação”, com serviços especializados, destinados ao setor. Até mesmo as empresas de entretenimento viram no segmento educacional um mercado em ascensão e altamente demandante de inovações e, por conseguinte, trataram de desenhar produtos e serviços que possam atendê-lo. Em suma, o mercado fervilhou e vem abrindo possibilidades para todo lado.

Um dos atores mais importantes desse ambiente e talvez o mais beneficiado deles no exercício da sua atividade, o professor, parece ter percebido uma oportunidade de ir além, ampliando seu raio de atuação. Acuado pelo acesso fácil à informação e pela intimidade das novas gerações em lidar com as tecnologias que a ela dão acesso, muitos dos nossos docentes sentiram que era hora de reagir. Aquele velho quadro negro e as fórmulas para utilizá-lo já não fazem mais efeito diante de uma plateia completamente plugada e provida de uma capacidade interativa sem igual.

Assim sendo, começam a transformar a ameaça em oportunidade. E, ao fazerem do limão uma limonada, estão surfando nessa onda. Isso mesmo: Educadores antenados, proativos e empreendedores vislumbraram um nicho espetacular e já estão ganhando dinheiro nele.
É o seguinte: Todo bom professor está habituado à rotina de elaborar seus planos de aula, e certamente deve fazê-lo da melhor forma possível. Entretanto, após ministrar a sua aula, o que é feito desse material? O mesmo acontece com projetos destinados a determinados temas, desenvolvidos para explorar lacunas do currículo. Certamente seriam de grande valia para outras escolas ou colegas docentes. O acesso a esse material permitiria economias de tempo e permitiriam a (re)utilização de conteúdos e materiais já produzidos...

Foi com base nessa demanda reprimida que um novo mercado começou a surgir, ligando diretamente professor a professor. Nesse ambiente, cada profissional pode criar sua própria loja, disponibilizando suas produções para serem utilizadas por outros profissionais. Embora existam espaços virtuais como a Kan Academy, esse novo formato permite que os próprios professores comercializem sua produção, auferindo uma receita adicional pelo seu trabalho, antes apenas utilizado por ele próprio. Não é à toa que já estão sendo chamados de “teacherpreneurs”, ou uma espécie de “professores empreendedores”, numa tradução livre.

Essas lojas virtuais permitem o acesso a abordagens inovadoras e transversais, como a proposta por uma professora de arte inglesa, que desenvolveu um rico plano de aula a partir da seguinte pergunta que formulou aos seus alunos:

“Que tipo de músicas você acha que Iago, o vilão de William Shakespeare "Otelo", iria ouvir se ele tivesse um iPhone?”

Ela conta que, ao se deparar com um desses sites onde os educadores podem comprar e vender seus planos de aula, ela se sentiu atraída em saber se esse material chamaria a atenção de outros professores. O que ela percebeu foi que não só existia muito interesse, como também eles estavam de fato dispostos a pagar por esse tipo de ajuda. Daí que resolveu investir em sua loja virtual. Avaliou os programas e, com um pouco de faro, desenvolveu planos de aula inovadores, que permitem aos professores melhorar suas aulas. Ela conta já ter produzido conteúdos que geraram vendas de mais de US $ 100.000. O que era uma obrigação, ou um hobby, se transformou em um rentável negócio.

O grande apelo deste tipo de oferta é que muitos professores consideram que nesse ambiente, eles podem encontrar ideias de professores mais experientes que enfrentam os mesmos desafios em sala de aula que eles. Numa altura em que muitos políticos, executivos de tecnologia e filantropos estão empurrando novas ferramentas digitais para o ensino, muitos professores também estão buscando técnicas que outros professores aperfeiçoaram ao longo dos anos em suas salas de aula, e que se mostraram práticas de sucesso.

Situações como essa estão fazendo crescer a audiência registrada nesse tipo de site e transformando esse perfil de empreendimento em uma espécie de Ectasy para os professores. Começa a surgir, então, a figura do professor-empresário. Para eles, a construção de um negócio bem sucedido também pode implicar inúmeras ramificações, como blogs com conteúdos pagos, e canais no YouTube, onde o autor pode ensinar como se usa o material.


Na verdade, olhando com cuidado, pode-se dizer que há um monte de criatividade e inovação no ar, refletindo a convergência de uma série de tendências em educação e tecnologia. E nessa onda de oportunidades, o professor ganha de todos os lados, seja com os recursos disponibilizados pelas escolas, seja com material desenvolvido pelas redes de ensino ou simplesmente, pela perspectiva de se tornar um educador empreendedor. Mãos à obra!

3 comentários:

eduardo disse...

Acredito nesta transformação da educação, e acredito mais ainda, que são os professores que farão a grande revolução, juntos claro, com pais e alunos, e gestores escolares. Acredito em micro revoluções a partir da sala de aula!

Marcelo Freitas disse...

Obrigado Eduardo. Penso que estamos num momento de implantar tecnologias e metodologias disruptivas na educação e cada um dos agentes que fazem parte desse ambiente precisam influenciar e contribuir nesse processo. Obrigado por sua contribuição.

Adriana Lott disse...

Amei!!! Quero me aprofundar mais no assunto!